domingo, 6 de março de 2016

CRÔNICAS DE UM DOMINGO VADIO - Amores, tempestades e o Bloco da Rama


Eleutério era um exemplo de cidadão cabofriense bem sucedido: herdeiro de uma pequena rede de lojas de eletrodomésticos, casado há dez anos com a mesma mulher, dois filhos irriquietos e um dos principais animadores do então ativíssimo Bloco da Rama, Leléu – como era chamado pelos colegas – tinha tudo que um jovem senhor de seus trinta e seis anos poderia querer.

Mesmo com o velho ainda a frente dos negócios, sua idade avançada fazia com que Leléu atuasse, na prática, como o verdadeiro dono de tudo. Da admissão de funcionários à compras e reposição de estoque, em tudo estava o dedo do jovem centralizador. Mesmo em suas horas de folga sua liderança era sentida, como na organização das saídas da grande paixão de sua vida – o Bloco da Rama.

Tinha Leléu dois parceiros inseparáveis no Bloco, aos quais delegava o pouco que sobrava de sua febril atividade organizadora. Ele e Nandinho – um dos parceiros – varavam madrugadas em intermináveis reuniões à portas fechadas na casa de Carlinhos, o outro parceiro e – convenientemente – solteiro e com uma casa disponível, e isso tornara-se rotina tão forte que nem mais incomodava Marieta, sua mulher.

Aos comentários de que o Bloco da Rama era um amontoado de bichas enrustidas procurando derivativo, o trio sempre respondia com um sorriso de desdém e a categórica afirmação de que seriam tão machos que sequer precisariam provar isso.

* * *

Ás vésperas do carnaval do ano da graça de Nosso Senhor de 1975, após uma lotada sexta-feira trabalhando na matriz de sua loja, entendeu Leléu de investir sua macheza na exuberância glútea de sestrosa mulatinha, a qual atendia na seção de rádio-vitrolas e sobre cujas nádegas o patrão já assestara sua pontaria desde que a mesma fora admitida.

Uma formidável tempestade de verão se aproximava, com trovões roncando, relâmpagos iluminando o lusco-fusco do entardecer e ensejando conveniente desculpa de Leléu para segurar a mulatinha após o expediente, sob pretexto de cobrir com lona algumas caixas que estavam no estoque, para evitar que molhassem.

A bem da verdade Luzia – a mulatinha – não rechaçava as investidas de Leléu. Afinal ele era jovem, rico e bem poderia ser um senhor que a ajudasse, nesta dura e difícil senda da vida, a montar sua própria casa. Sorria, lançava olhares e mesmo confidenciava intimidades como sua virgindade em seus dezessete anos. Pois naquele entardecer tempestuoso ela sentia-se criativa e sugerira uma alternativa obscena para desafligi-los da angústia descerebrada dos quadris.

Tal sugestão foi como prêmio de loteria para Leléu, antigo em cobiçar as nádegas rotundas da pequena saliente: apressadamente jogou-a de quatro por cima das caixas de papelão do estoque e ali mesmo satisfizeram-se.

* * *

Terminada a aflição, lembrou-se Leléu de sair de cima de Luzia e fumar um cigarro. Entretanto, o pior acontecera: amigos já o haviam prevenido contra os perigos da sodomia e agora, ao que tudo indicava, seus piores pesadelos tornaram-se realidade – estavam, ambos, engatados tal como dois cachorros em despudorado acasalamento.

Tudo tentaram, todas as posições, óleo de máquina de costura, cutucões na barriga da pobre que – cada vez mais nervosa – desesperava-se em gritos e xiliques histéricos, e nada funcionava.

Com suas partes cada vez mais edemaciadas e sentindo dores somente suspeitadas no inferno, decidiu Leléu cobrir a sí e a pobre desgraçadinha com tosco e imundo lençol, entrar em seu carro com ela no colo e dirigir até o hospital, última possibilidade de salvação, apesar do escândalo.

Como se o próprio Deus tivesse a firme resolução de castigá-los por seus pecados, a imensa tempestade que começara junto com suas libidinagens descia com fúria divina por sobre toda a cidade, tornando quase impossível distinguir um palmo que fosse, à frente.

Tudo tem seu lado bom, pensou Leléu: esta mesma tempestade também serviu para acabar com a luz de toda a região, permitindo que alcançassem o pronto-socorro sem serem incomodados – eis que nenhum doido se atreveria a sair ás ruas debaixo do verdadeiro dilúvio que se abatia sobre Cabo Frio.

Mas a ira de Deus não se detém com a simples escuridão. No próprio hospital Leléu – conhecidíssimo na cidade – logo foi avistado por enfermeiras companheiras de carnaval e médicos amigos do Bloco, os quais rapidamente tornaram pública sua miserável e humilhante condição.

Não fosse pouca tal desgraça, tão forte foi a tempestade que todo o teto mais a fachada de sua loja desabaram, sob o peso de toneladas de água, acionando um escandaloso e comentado trabalho do brioso Corpo de Bombeiros.

Feito antiga brincadeira do “telefone sem fio”, às notícias do pobre entalado somaram-se à do desabamento de sua loja, provocando uma romaria de amigos, amigas, parentes e mesmo autoridades, ao hospital em busca de notícias.
- É verdade que Leléu ficou preso nos escombros da loja?, perguntava um.
- Pois é, parece que ele e mais uma funcionária estavam trabalhando, e tiveram de ser separados com serra elétrica!, exagerava outro.

Lívido, Carlinhos entrara no hospital sem se importar com mais nada e berrando, alto e bom som:
- Leléu! Eu sabia! Sempre desconfiei de seus olhares pro Nandinho!

Toda aquela multidão teve sua curiosidade desperta pela insinuação, e cobrou explicações do pobre rapaz, acuado contra a parede. Sem ter como resistir, abriu o verbo:
- Eu, Nandinho e Leléu nos reuníamos em minha casa fingindo que era pra tratar dos assuntos do bloco...
- E dai?, urraram todos.
- E daí que a gente ficava juntos, os três...mas ele me trair e ficar só com o Nandinho escondido na loja, é muita sacanagem!

Mais sacanagem ainda o pobre deve ter achado, ao se deparar com as bisonhas figuras de Leléu e Luzia enrolados em lençóis, cabisbaixos e apressados, rumando de mãos dadas em direção ao carro.
Sem se fazer de rogado, o médico que os acompanhara satisfez a curiosidade popular detalhando, à sordidez possível, tudo o que os apetites irritados da turba quis saber.

* * *

O casal, na verdade, nem chegara a entrar no carro e já voltara ao hospital. Marieta os esperava na chuva, armada com a mesma pá que minutos antes estava usando para desafogar – sozinha – sua casa do lamaçal que infiltrara, e os moera à golpes.

* * *

O pai de Leléu vendeu a loja a uma rede carioca de eletrodomésticos, logo após seu filho mudar-se – desquitado – para São Paulo.

A família de Leléu – ex-mulher e filhos – igualmente saíram da cidade e ninguém nunca mais soube deles.


Nandinho e Carlinhos casaram-se informalmente, e foram morar no Arraial do Cabo, trabalhando como assessores de Luzia – que elegeu-se vereadora pelo novo município, logo após sua emancipação.

Walter Biancardine